A imagem clássica mostra Joseph Smith com as placas de ouro em cima da mesa, o Urim e Tumim nos olhos, lendo caracteres antigos. A realidade — admitida hoje pela própria Igreja — é outra.
Toda criança mórmon cresce com a mesma cena ilustrada em manuais, lições da Escola Dominical e murais de capela.
A imagem tradicional mostra Joseph Smith sentado a uma mesa, com as placas de ouro abertas à sua frente. Ele examina os caracteres "egípcios reformados" com o Urim e Tumim — descrito como um par de pedras cristalinas montadas em aros de metal, como óculos. Um escriba senta-se à sua frente, separado por uma cortina. Smith lê os caracteres e dita a tradução.
Essa é a narrativa que aparece:
Gospel Principles, Doctrine and Covenants Stories, Primary manuals — todas com a cena da mesa com placas.
Obras de Del Parson e outros artistas contratados pela Igreja mostram as placas visíveis sobre a mesa.
Os vídeos exibidos nos centros de visitantes dos templos mostram a mesma encenação idealizada.
O problema: nenhuma testemunha ocular direta da tradução descreveu a cena assim. Todas descreveram algo completamente diferente.
Quatro pessoas que efetivamente assistiram ou participaram da tradução deixaram depoimentos registrados.
Emma Smith, esposa de Joseph, atuou como escriba em partes da tradução. Em uma entrevista dada a seu filho Joseph Smith III em fevereiro de 1879 — publicada postumamente no jornal oficial da Reorganized Church (hoje Comunidade de Cristo) — ela descreveu o que viu:
Em nosso trabalho de tradução, eu escrevia, ficando sentada à mesa perto dele, enquanto ele se sentava com o rosto enterrado em seu chapéu, com a pedra dentro dele, e ditava hora após hora, sem nada entre nós.
Emma acrescentou: "As placas frequentemente ficavam sobre a mesa, sem qualquer tentativa de escondê-las, envoltas em uma pequena toalha de linho que eu havia dado a ele para embrulhá-las."
David Whitmer, uma das "Três Testemunhas" oficiais do Livro de Mórmon, descreveu o processo em um panfleto publicado em 1887:
Joseph Smith colocava a pedra vidente no fundo do chapéu, e depois colocava o rosto dentro do chapéu, puxando-o bem apertado ao redor do rosto para excluir a luz; e no escuro apareceria a luz espiritual. Um pedaço de algo semelhante a pergaminho aparecia, e nele apareceriam as escritas. Uma frase apareceria, e seria lida por Joseph e escrita por Martin.
Martin Harris, outra das Três Testemunhas, descreveu o mesmo método em entrevista ao missionário Edward Stevenson, publicada no Deseret News oficial da Igreja em 30 de novembro de 1881:
Pela ajuda da pedra vidente, as sentenças apareceriam e seriam lidas pelo Profeta, e escritas por Martin, e quando terminadas ele diria, "escrito", e se corretamente escrito, essa sentença desapareceria e outra apareceria em seu lugar; mas se não fosse escrita corretamente, permanecia até ser corrigida.
As três testemunhas — uma esposa, duas das três "testemunhas especiais" — descrevem o mesmo método, em momentos diferentes, para jornais diferentes, com linguagem própria de cada um. O relato convergente e independente é o padrão-ouro da evidência testemunhal. Emma, David e Martin não estavam combinados: cada um simplesmente descreveu o que viu.
A pedra não veio com as placas. Ela veio antes — anos antes.
A pedra marrom usada na tradução foi encontrada por Joseph Smith em 1822, enquanto cavava um poço para a família Chase em Manchester, Nova York. Ela tinha cerca de 5 cm de comprimento, forma ovoide, coloração marrom-chocolate com listras esbranquiçadas. Smith a utilizou durante anos, antes da experiência religiosa das placas, em atividades de "busca por tesouros" (treasure digging) — uma prática folclórica comum na Nova Inglaterra do início do século XIX em que videntes prometiam localizar tesouros enterrados.
Cavando um poço na propriedade de Willard Chase, em Manchester (NY). Tinha 16 anos.
Smith oferece serviços pagos de localização de tesouros enterrados usando a pedra dentro do chapéu.
Smith é julgado em Nova York como "pessoa desordeira" (glass looker) pela prática comercial de busca de tesouros. Registro judicial sobrevive.
Smith usa a mesma pedra que usava para tesouros, agora para "traduzir" as placas de ouro.
Pela primeira vez em quase 200 anos, a Igreja publica a foto da pedra — guardada há décadas no cofre da Primeira Presidência.
A mesma pedra usada para prometer tesouros enterrados (prática pela qual Smith foi julgado em tribunal) foi depois usada para "traduzir" o texto canônico mais importante do mormonismo. Esse é um fato admitido pela Igreja.
Durante 185 anos, a Igreja evitou discutir publicamente a pedra no chapéu. Em outubro de 2015, isso mudou.
A revista oficial Ensign, publicada pela Igreja, trouxe em sua edição de outubro de 2015 um artigo intitulado "Joseph, o Vidente", assinado pelo historiador oficial da Igreja Richard E. Turley Jr. e outros. Pela primeira vez, a Igreja:
A pedra marrom, fotografada de três ângulos, apareceu nas páginas 48–51 do Ensign de outubro de 2015.
O artigo descreve explicitamente que Smith "colocava a pedra em seu chapéu" e que ele "viu as palavras por meio da pedra".
A pedra foi doada à Igreja por Oliver Cowdery em 1850 e guardada por décadas no cofre da Primeira Presidência.
[...] Conforme Joseph traduzia, ele ditava para seu escriba [...]. As testemunhas dessa tradução descreveram Joseph como usando o Urim e Tumim (os intérpretes que vieram com as placas) ou uma única pedra vidente. Ambos os instrumentos foram [...] referidos como "intérpretes". Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris e outros descreveram Joseph Smith colocando o ou uma pedra em um chapéu, cobrindo o rosto com o chapéu para obstruir a luz, e depois ditando linha por linha enquanto olhava para a pedra.
Um ano antes, a Igreja já havia publicado o mesmo reconhecimento de forma mais discreta, no Gospel Topics Essay "Book of Mormon Translation", de dezembro de 2013:
De acordo com essas relatos, Joseph colocava o intérprete ou a pedra vidente em um chapéu, pressionava o rosto dentro do chapéu para bloquear a luz externa, e lia em voz alta as palavras em inglês que apareciam no instrumento.
Entre a admissão oficial (2013/2015) e a produção artística/educacional anterior da Igreja há uma contradição direta. Um membro fiel que tenha aprendido sobre a tradução nos anos 1980 ou 1990 recebeu uma versão da história — a mesa, as placas, o Urim e Tumim — que hoje a própria Igreja reconhece ser incompleta e parcialmente incorreta. A questão não é se a nova versão é verdade (as testemunhas oculares do século XIX já diziam isso); é por que levou tanto tempo para a narrativa oficial se alinhar com os depoimentos diretos.
Se a tradução acontecia com o rosto dentro do chapéu, olhando para uma pedra — qual era o papel das placas?
De acordo com Emma Smith, as placas normalmente ficavam em outro cômodo, cobertas por um pano ou enroladas, ou mesmo escondidas na floresta próxima. Em alguns relatos, ficavam sobre a mesa ao lado de Joseph, mas cobertas por uma toalha de linho. Em nenhum depoimento de testemunha ocular direta Smith foi descrito olhando para as placas durante a tradução.
O Gospel Topics Essay oficial admite isso:
As placas de ouro, aparentemente, não eram usadas diretamente no processo de tradução. O instrumento de tradução era a pedra ou os intérpretes.
| Aspecto | Imagem tradicional | Fato histórico documentado |
|---|---|---|
| Posição de Smith | Olhando para as placas sobre a mesa | Rosto dentro de um chapéu |
| Instrumento usado | Urim e Tumim (intérpretes das placas) | Pedra marrom comum, usada antes para busca de tesouros |
| Visualização das placas | Lendo caracteres diretamente | Placas cobertas por pano, às vezes em outro cômodo |
| Separação por cortina | Comum em representações | Não há registro consistente disso |
Não se trata de fazer acusações: a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias já reconheceu oficialmente o método da pedra no chapéu em Gospel Topics Essay (2013) e em seu periódico oficial Ensign (outubro de 2015), com foto.
O que permanece como questão séria é por que a arte oficial, os manuais catequéticos e os vídeos produzidos pela própria Igreja durante quase duas décadas após as admissões continuam, em grande parte, exibindo a cena antiga. Uma geração de fiéis foi ensinada uma versão da história que a instituição hoje classifica como incompleta.
Para quem quer decidir com informação completa, a foto da pedra, a descrição da Emma Smith e o Ensign de outubro de 2015 estão a um clique de distância.
Todas as descrições do método são documentadas pelas testemunhas oculares diretas (Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris) e reconhecidas pela própria Igreja em publicações oficiais de 2013 e 2015.
As três testemunhas oculares primárias — Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris — descreveram o método da tradução em entrevistas independentes, publicadas em jornais e panfletos diferentes, ao longo de décadas, sem comunicação coordenada entre si. A convergência dos relatos é forte evidência testemunhal. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias admitiu oficialmente o método em 2013 (Gospel Topics Essay) e 2015 (Ensign).