Tier S · Bizarrice doutrinária

A pedra
no chapéu

A imagem clássica mostra Joseph Smith com as placas de ouro em cima da mesa, o Urim e Tumim nos olhos, lendo caracteres antigos. A realidade — admitida hoje pela própria Igreja — é outra.

Harmony, Pensilvânia · 1827–1829 · tradução do Livro de Mórmon
Índice do documento

O que você vai encontrar aqui

Seção 01 — A imagem oficial

O que a Igreja ensinou por 180 anos

Toda criança mórmon cresce com a mesma cena ilustrada em manuais, lições da Escola Dominical e murais de capela.

A imagem tradicional mostra Joseph Smith sentado a uma mesa, com as placas de ouro abertas à sua frente. Ele examina os caracteres "egípcios reformados" com o Urim e Tumim — descrito como um par de pedras cristalinas montadas em aros de metal, como óculos. Um escriba senta-se à sua frente, separado por uma cortina. Smith lê os caracteres e dita a tradução.

Essa é a narrativa que aparece:

📖
Em manuais oficiais por décadas

Gospel Principles, Doctrine and Covenants Stories, Primary manuals — todas com a cena da mesa com placas.

🎨
Em pinturas oficiais da Igreja

Obras de Del Parson e outros artistas contratados pela Igreja mostram as placas visíveis sobre a mesa.

📺
Em filmes de visitor centers

Os vídeos exibidos nos centros de visitantes dos templos mostram a mesma encenação idealizada.

O problema: nenhuma testemunha ocular direta da tradução descreveu a cena assim. Todas descreveram algo completamente diferente.

Seção 02 — As testemunhas oculares

O que quem estava na sala viu

Quatro pessoas que efetivamente assistiram ou participaram da tradução deixaram depoimentos registrados.

Emma Smith, esposa de Joseph, atuou como escriba em partes da tradução. Em uma entrevista dada a seu filho Joseph Smith III em fevereiro de 1879 — publicada postumamente no jornal oficial da Reorganized Church (hoje Comunidade de Cristo) — ela descreveu o que viu:

Emma Smith Bidamon · "Last Testimony of Sister Emma" · Saints' Herald, 1/out/1879

Em nosso trabalho de tradução, eu escrevia, ficando sentada à mesa perto dele, enquanto ele se sentava com o rosto enterrado em seu chapéu, com a pedra dentro dele, e ditava hora após hora, sem nada entre nós.

Emma acrescentou: "As placas frequentemente ficavam sobre a mesa, sem qualquer tentativa de escondê-las, envoltas em uma pequena toalha de linho que eu havia dado a ele para embrulhá-las."

David Whitmer, uma das "Três Testemunhas" oficiais do Livro de Mórmon, descreveu o processo em um panfleto publicado em 1887:

David Whitmer · An Address to All Believers in Christ · Richmond, MO · 1887 · p. 12

Joseph Smith colocava a pedra vidente no fundo do chapéu, e depois colocava o rosto dentro do chapéu, puxando-o bem apertado ao redor do rosto para excluir a luz; e no escuro apareceria a luz espiritual. Um pedaço de algo semelhante a pergaminho aparecia, e nele apareceriam as escritas. Uma frase apareceria, e seria lida por Joseph e escrita por Martin.

Martin Harris, outra das Três Testemunhas, descreveu o mesmo método em entrevista ao missionário Edward Stevenson, publicada no Deseret News oficial da Igreja em 30 de novembro de 1881:

Martin Harris · Entrevista a Edward Stevenson · Deseret News, 30/nov/1881

Pela ajuda da pedra vidente, as sentenças apareceriam e seriam lidas pelo Profeta, e escritas por Martin, e quando terminadas ele diria, "escrito", e se corretamente escrito, essa sentença desapareceria e outra apareceria em seu lugar; mas se não fosse escrita corretamente, permanecia até ser corrigida.

Análise crítica

As três testemunhas — uma esposa, duas das três "testemunhas especiais" — descrevem o mesmo método, em momentos diferentes, para jornais diferentes, com linguagem própria de cada um. O relato convergente e independente é o padrão-ouro da evidência testemunhal. Emma, David e Martin não estavam combinados: cada um simplesmente descreveu o que viu.

Seção 03 — A pedra vidente

Um objeto que Joseph
possuía

A pedra não veio com as placas. Ela veio antes — anos antes.

A pedra marrom usada na tradução foi encontrada por Joseph Smith em 1822, enquanto cavava um poço para a família Chase em Manchester, Nova York. Ela tinha cerca de 5 cm de comprimento, forma ovoide, coloração marrom-chocolate com listras esbranquiçadas. Smith a utilizou durante anos, antes da experiência religiosa das placas, em atividades de "busca por tesouros" (treasure digging) — uma prática folclórica comum na Nova Inglaterra do início do século XIX em que videntes prometiam localizar tesouros enterrados.

1822
Smith encontra a pedra marrom

Cavando um poço na propriedade de Willard Chase, em Manchester (NY). Tinha 16 anos.

1822–1826
Uso na busca por tesouros

Smith oferece serviços pagos de localização de tesouros enterrados usando a pedra dentro do chapéu.

20 mar 1826
Julgamento de Bainbridge

Smith é julgado em Nova York como "pessoa desordeira" (glass looker) pela prática comercial de busca de tesouros. Registro judicial sobrevive.

1827–1829
Tradução do Livro de Mórmon

Smith usa a mesma pedra que usava para tesouros, agora para "traduzir" as placas de ouro.

Out 2015
Ensign publica foto oficial

Pela primeira vez em quase 200 anos, a Igreja publica a foto da pedra — guardada há décadas no cofre da Primeira Presidência.

A mesma pedra usada para prometer tesouros enterrados (prática pela qual Smith foi julgado em tribunal) foi depois usada para "traduzir" o texto canônico mais importante do mormonismo. Esse é um fato admitido pela Igreja.

Seção 04 — A admissão oficial de 2015

Ensign de outubro de 2015

Durante 185 anos, a Igreja evitou discutir publicamente a pedra no chapéu. Em outubro de 2015, isso mudou.

A revista oficial Ensign, publicada pela Igreja, trouxe em sua edição de outubro de 2015 um artigo intitulado "Joseph, o Vidente", assinado pelo historiador oficial da Igreja Richard E. Turley Jr. e outros. Pela primeira vez, a Igreja:

📸
Publicou a foto da pedra vidente

A pedra marrom, fotografada de três ângulos, apareceu nas páginas 48–51 do Ensign de outubro de 2015.

✍️
Admitiu o método do chapéu

O artigo descreve explicitamente que Smith "colocava a pedra em seu chapéu" e que ele "viu as palavras por meio da pedra".

🔓
Revelou onde a pedra estava

A pedra foi doada à Igreja por Oliver Cowdery em 1850 e guardada por décadas no cofre da Primeira Presidência.

Ensign · out/2015 · "Joseph the Seer" · Richard E. Turley Jr.

[...] Conforme Joseph traduzia, ele ditava para seu escriba [...]. As testemunhas dessa tradução descreveram Joseph como usando o Urim e Tumim (os intérpretes que vieram com as placas) ou uma única pedra vidente. Ambos os instrumentos foram [...] referidos como "intérpretes". Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris e outros descreveram Joseph Smith colocando o ou uma pedra em um chapéu, cobrindo o rosto com o chapéu para obstruir a luz, e depois ditando linha por linha enquanto olhava para a pedra.

Um ano antes, a Igreja já havia publicado o mesmo reconhecimento de forma mais discreta, no Gospel Topics Essay "Book of Mormon Translation", de dezembro de 2013:

Gospel Topics Essay · "Book of Mormon Translation" · 2013

De acordo com essas relatos, Joseph colocava o intérprete ou a pedra vidente em um chapéu, pressionava o rosto dentro do chapéu para bloquear a luz externa, e lia em voz alta as palavras em inglês que apareciam no instrumento.

Análise crítica

Entre a admissão oficial (2013/2015) e a produção artística/educacional anterior da Igreja há uma contradição direta. Um membro fiel que tenha aprendido sobre a tradução nos anos 1980 ou 1990 recebeu uma versão da história — a mesa, as placas, o Urim e Tumim — que hoje a própria Igreja reconhece ser incompleta e parcialmente incorreta. A questão não é se a nova versão é verdade (as testemunhas oculares do século XIX já diziam isso); é por que levou tanto tempo para a narrativa oficial se alinhar com os depoimentos diretos.

Seção 05 — As placas

E onde ficavam
as placas de ouro?

Se a tradução acontecia com o rosto dentro do chapéu, olhando para uma pedra — qual era o papel das placas?

De acordo com Emma Smith, as placas normalmente ficavam em outro cômodo, cobertas por um pano ou enroladas, ou mesmo escondidas na floresta próxima. Em alguns relatos, ficavam sobre a mesa ao lado de Joseph, mas cobertas por uma toalha de linho. Em nenhum depoimento de testemunha ocular direta Smith foi descrito olhando para as placas durante a tradução.

O Gospel Topics Essay oficial admite isso:

Gospel Topics Essay · "Book of Mormon Translation" · 2013

As placas de ouro, aparentemente, não eram usadas diretamente no processo de tradução. O instrumento de tradução era a pedra ou os intérpretes.

Aspecto Imagem tradicional Fato histórico documentado
Posição de Smith Olhando para as placas sobre a mesa Rosto dentro de um chapéu
Instrumento usado Urim e Tumim (intérpretes das placas) Pedra marrom comum, usada antes para busca de tesouros
Visualização das placas Lendo caracteres diretamente Placas cobertas por pano, às vezes em outro cômodo
Separação por cortina Comum em representações Não há registro consistente disso

Veredicto

Não se trata de fazer acusações: a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias já reconheceu oficialmente o método da pedra no chapéu em Gospel Topics Essay (2013) e em seu periódico oficial Ensign (outubro de 2015), com foto.

O que permanece como questão séria é por que a arte oficial, os manuais catequéticos e os vídeos produzidos pela própria Igreja durante quase duas décadas após as admissões continuam, em grande parte, exibindo a cena antiga. Uma geração de fiéis foi ensinada uma versão da história que a instituição hoje classifica como incompleta.

Para quem quer decidir com informação completa, a foto da pedra, a descrição da Emma Smith e o Ensign de outubro de 2015 estão a um clique de distância.

✦ FONTES PRIMÁRIAS · ADMISSÃO OFICIAL DA IGREJA ✦
Seção 06 — Verificação

Fontes originais & comprovação

Todas as descrições do método são documentadas pelas testemunhas oculares diretas (Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris) e reconhecidas pela própria Igreja em publicações oficiais de 2013 e 2015.

01 — Publicações oficiais da Igreja (admissões)
01
Ensign, out/2015 — "Joseph, the Seer" (com foto oficial da pedra)
Richard E. Turley Jr., Robin S. Jensen, Mark Ashurst-McGee · Church Historian's Press
Artigo marco no Ensign oficial que publica pela primeira vez fotografias da pedra vidente marrom usada por Joseph Smith. Admite o método do "chapéu" citando Emma Smith, David Whitmer e Martin Harris. A pedra foi transferida por Oliver Cowdery para Brigham Young em 1850 e guardada desde então pela Primeira Presidência.
Foto oficial da pedra Admissão do método do chapéu Cadeia de custódia da pedra
"Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris, and others described Joseph Smith placing the or a stone in a hat, covering his face with the hat to block out the light, and then dictating line upon line while peering at the stone."
churchofjesuschrist.org — Joseph the Seer (Ensign out/2015) Revista oficial da Igreja
02
Gospel Topics Essay — "Book of Mormon Translation" (2013)
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias · churchofjesuschrist.org
Ensaio oficial que, em 2013, admitiu formalmente que Joseph Smith usou pedras videntes em um chapéu para "traduzir" o Livro de Mórmon. Também reconhece que as placas de ouro em si não eram diretamente utilizadas durante o processo — o que contradiz a imagem tradicional de Smith lendo caracteres nelas.
Método do chapéu admitido Placas não eram usadas diretamente Uso da pedra marrom
churchofjesuschrist.org — A tradução do Livro de Mórmon (português) Autodocumentação institucional
02 — Depoimentos primários das testemunhas oculares
03
"Last Testimony of Sister Emma" — entrevista de Emma Smith Bidamon
Saints' Herald, vol. 26 · 1 de outubro de 1879 · entrevistada pelo filho Joseph Smith III
A última entrevista significativa de Emma Smith antes de sua morte em 1879, publicada no órgão oficial da RLDS (hoje Comunidade de Cristo). Emma descreve o método da tradução em detalhe, confirmando o uso do chapéu com a pedra dentro, e que as placas ficavam frequentemente cobertas por um pano.
Método do chapéu Placas cobertas por toalha de linho Emma como escriba
"I was sitting by the table close to him, and he sitting with his face buried in his hat, with the stone in it, and dictating hour after hour with nothing between us."
xmission.com — "Last Testimony of Sister Emma" (1879) Fonte primária · testemunha ocular direta
04
David Whitmer — An Address to All Believers in Christ
Publicado em Richmond, Missouri · 1887 · p. 12
Panfleto autobiográfico escrito por David Whitmer — uma das Três Testemunhas oficiais do Livro de Mórmon — publicado ao final de sua vida. Whitmer descreve o método da tradução em termos quase idênticos aos de Emma e Martin Harris, confirmando a convergência dos relatos.
Pedra no fundo do chapéu Rosto do Smith dentro do chapéu Três Testemunhas — fonte primária
"Joseph Smith would put the seer stone into a hat, and put his face in the hat, drawing it closely around his face to exclude the light."
mrm.org — An Address to All Believers in Christ (1887) Fonte primária · Testemunha oficial
05
Martin Harris — entrevista a Edward Stevenson
Deseret News oficial · 30 de novembro de 1881
Entrevista de Martin Harris (outra das Três Testemunhas) conduzida pelo apóstolo Edward Stevenson e publicada no jornal oficial da Igreja em Utah, já no final do século XIX. Harris descreve o mesmo método do chapéu com pedra — e relata o detalhe de que Smith precisava "escrever corretamente" cada sentença para que ela desaparecesse da pedra.
Confirmação do método Publicado no Deseret News oficial Mecanismo de "validação" das sentenças
xmission.com — Entrevista de Martin Harris (1881) Fonte primária · Testemunha oficial
03 — Contexto histórico e estudo acadêmico
06
Michael Hubbard MacKay & Gerrit J. Dirkmaat — From Darkness unto Light
BYU Religious Studies Center / Deseret Book, 2015 · ISBN 978-1629721439
Obra acadêmica publicada pela própria BYU, pelos mesmos historiadores que trabalham no Joseph Smith Papers Project. Documenta em detalhe o uso da pedra vidente e o método do chapéu, citando todas as testemunhas oculares. É considerada a fonte acadêmica mórmon mais completa sobre a tradução — e confirma tudo que os críticos da Igreja vinham dizendo há décadas.
Método do chapéu confirmado Análise de todas as testemunhas Fonte acadêmica interna à Igreja
rsc.byu.edu — From Darkness unto Light BYU Religious Studies Center
07
Joseph Smith Papers — Documentação da tradução
Church Historian's Press · josephsmithpapers.org
Portal oficial que reúne os manuscritos originais do Livro de Mórmon, diários dos envolvidos na tradução e análises acadêmicas. Inclui descrição do "Printer's Manuscript" (manuscrito do impressor) e do "Original Manuscript" — ambos com pistas sobre o método de tradução.
Manuscritos originais digitalizados Análise codicológica Cronologia da tradução
josephsmithpapers.org — Joseph Smith's Translation Projects Church Historian's Press · Fonte primária
08
Registro judicial — People v. Joseph Smith, Bainbridge, NY (20 mar 1826)
Transcrição em Wesley P. Walters, "From Occult to Cult with Joseph Smith, Jr." · Journal of Pastoral Practice 1 (1977)
Registro do julgamento de Joseph Smith em março de 1826 em Bainbridge, Nova York, acusado de ser "pessoa desordeira" por cobrar para localizar tesouros enterrados usando uma pedra no chapéu. A ata confirma que Smith usava o mesmo método — pedra dentro do chapéu — antes e independentemente da tradução do Livro de Mórmon.
Uso da pedra antes da "tradução" Contexto de "glass looking" Registro judicial primário
wikisource.org — People v. Joseph Smith (1826) Documento judicial primário
Fonte primária verificada academicamente
Fonte oficial da própria Igreja
Link verificado em abril de 2026

As três testemunhas oculares primárias — Emma Smith, David Whitmer, Martin Harris — descreveram o método da tradução em entrevistas independentes, publicadas em jornais e panfletos diferentes, ao longo de décadas, sem comunicação coordenada entre si. A convergência dos relatos é forte evidência testemunhal. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias admitiu oficialmente o método em 2013 (Gospel Topics Essay) e 2015 (Ensign).