Entre 1852 e 1978, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias proibiu homens de ascendência africana negra de receberem o sacerdócio ou ordenanças do templo. A doutrina foi ensinada por profetas como revelação divina. Em 2013, a Igreja a desautorizou — reconhecendo que "teorias" sobre maldição, servidão e pele escura "são rejeitadas hoje".
Na vida de Joseph Smith, não havia proibição racial. Pelo menos três homens negros receberam o sacerdócio durante sua liderança.
O Gospel Topics Essay oficial confirma:
Há evidência de que, durante a vida de Joseph Smith, alguns homens negros foram ordenados ao sacerdócio. Em algum momento, a Igreja começou a proibir a ordenação ao sacerdócio de homens de ascendência africana negra, apesar de alguns homens negros terem sido ordenados no início da Igreja.
Ordenado Élder em 1836 e Setenta em 1836. Serviu em missões em Nova York e no Canadá. Morreu em 1884 ainda detentor do sacerdócio — apesar do banimento já em vigor.
Ordenado Élder no sacerdócio em 1843 por William Smith, irmão de Joseph. Abolicionista em Massachusetts antes de se converter.
Filho de Walker Lewis. Casou-se com Mary Matilda Webster, uma mulher branca — casamento que Brigham Young usaria como justificativa para o banimento em 1847.
Durante o governo de Joseph Smith, não há nenhuma revelação registrada — nem em D&C nem em manuscritos — instituindo o banimento racial.
Em 5 de fevereiro de 1852, diante da legislatura territorial de Utah, Brigham Young pronunciou o discurso que estabeleceu formalmente a política.
Qualquer homem que tenha uma gota do sangue de Caim nele, não pode deter o Sacerdócio; e se nenhum outro Profeta jamais falou isso antes, eu o digo agora, em nome de Jesus Cristo. Eu sei que é verdade e outros sabem.
Anos depois, em 1863, em Salt Lake Tabernacle:
Abençoemos as suas almas [...] deixem o filho de Cão casar com a filha de Cão; e o filho de Abraão com a filha de Abraão, e o filho de Israel com a filha de Israel. [...] Se o homem branco que pertence a uma semente escolhida misturar seu sangue com a semente de Caim, a penalidade, sob a lei de Deus, é a morte imediata. Assim será sempre.
A política excluía pessoas de ascendência africana negra de:
| Ordenança | Permitida a membros negros? | Consequência |
|---|---|---|
| Batismo | Sim | Podiam ser membros de segunda classe |
| Sacerdócio Aarônico | Não | Homens não podiam distribuir sacramento, batizar, etc. |
| Sacerdócio de Melquisedeque | Não | Homens não podiam realizar ordenanças superiores |
| Endowment (templo) | Não | Proibidos de receber a ordenança de exaltação |
| Selamento (casamento no templo) | Não | Casamentos apenas "por esta vida", não eternos |
Não foi apenas uma política administrativa. Por 130 anos, profetas e apóstolos ensinaram razões teológicas específicas para o banimento — publicadas em manuais oficiais, discursos de conferência e literatura doutrinária.
A doutrina foi canonizada na literatura oficial. O exemplo mais famoso é o livro Mormon Doctrine de Bruce R. McConkie — apóstolo da Igreja — publicado em 1958 e amplamente distribuído. Verbete "NEGROES":
No plano pré-existente, certas almas foram escolhidas para vir à Terra em corpos escuros, como resultado de sua imperfeição pré-existente. [...] Os negros não são iguais a outras raças em direção a bênçãos [...]. Aqueles que foram menos valentes na pré-existência e que mantiveram uma neutralidade enquanto satanás e suas hostes lutavam contra os justos [...] são conhecidos como a raça negra.
Joseph Fielding Smith (10º presidente da Igreja) escreveu em Doctrines of Salvation (1954, obra oficial como manual SUD):
Houve os fiéis na hoste do céu, que lutaram pela causa de Deus Pai; e aqueles que foram menos valentes foram amaldiçoados [...]. A raça negra, devido ao fato de que não foi valente na hoste pré-mortal, foi punida com a privação do Sacerdócio e suas bênçãos.
Estas não foram citações isoladas. Foram ensinos oficiais reimpressos em manuais de seminário, institutos e aulas da Escola Dominical por décadas. Gerações inteiras de mórmons aprenderam que pessoas negras eram literalmente "menos valentes" na pré-existência.
Em 1º de junho de 1978, o presidente Spencer W. Kimball anunciou que havia recebido uma revelação ordenando o fim do banimento racial.
[...] ele [Deus] pela revelação confirmou que o longo prometido dia havia chegado, quando todo homem fiel e digno na Igreja pode receber o santo sacerdócio, com poder para exercer sua autoridade divina.
A declaração é breve — uma página. Não menciona Brigham Young, não reconhece erro profético, não pede desculpas, não explica por que a revelação veio apenas em 1978.
O ano era 1978. A Igreja estava a construir seu templo em São Paulo, Brasil — país cuja população era majoritariamente miscigenada. Muitos membros brasileiros haviam contribuído financeiramente e espiritualmente para o templo que, literalmente, não poderiam entrar.
A pressão social dos anos 1960–70 (movimento dos direitos civis, Protest at BYU 1969, boicote de universidades esportivas) também é fator documentado por historiadores mórmons (Armand Mauss, Edward Kimball filho do próprio presidente).
Edward L. Kimball — filho do presidente Spencer W. Kimball e seu biógrafo oficial — publicou um artigo em BYU Studies em 2008 detalhando o processo. O processo durou meses. O próprio presidente Kimball pediu aos apóstolos que orassem repetidamente. A decisão não foi instantânea — foi uma deliberação prolongada sob pressão institucional.
Em dezembro de 2013, a Igreja publicou o Gospel Topics Essay "Race and the Priesthood". O texto desautoriza a teologia racista — mas com distinção sutil.
Hoje, a Igreja desautoriza as teorias avançadas no passado de que a pele escura é um sinal de desfavor divino ou maldição, ou que reflete ações em uma vida pré-mortal; de que casamentos entre raças são um pecado; ou que pessoas negras ou de qualquer outra raça ou etnia são, de alguma forma, inferiores a qualquer outra. Os líderes da Igreja hoje condenam inequivocamente todo racismo, passado e presente, de qualquer forma.
O ensaio é o primeiro documento oficial que reconhece que a política veio de Brigham Young (não de Joseph Smith ou revelação):
Há evidência de que, durante a vida de Joseph Smith, alguns homens negros foram ordenados ao sacerdócio. [...] Em 1852, o presidente Brigham Young anunciou publicamente que homens de ascendência africana negra não mais podiam ser ordenados ao sacerdócio, embora pudessem continuar a receber o batismo, o Espírito Santo e as bênçãos do templo. [...] Por quase toda a história da Igreja, o sacerdócio foi mantido aos homens de ascendência africana negra.
O ensaio reconhece especificamente que as "razões" teológicas eram produtos culturais do século XIX:
Ao longo dos anos, líderes e membros da Igreja apresentaram numerosas teorias para explicar o banimento do sacerdócio e do templo. Nenhuma dessas explicações é aceita hoje como doutrina oficial da Igreja.
O Gospel Topics Essay desautoriza as "teorias". Mas evita três perguntas fundamentais:
Em 1852, Brigham Young afirmou pregar a doutrina "em nome de Jesus Cristo" e que ela era "verdade". Se isso era falso, então um profeta falou como profeta e ensinou racismo teológico. Se não era falso, o banimento era legítimo — e então 1978 não foi revelação, mas mudança política.
Se o banimento nunca foi doutrina verdadeira, por que o presidente John Taylor, Wilford Woodruff, Lorenzo Snow, Joseph F. Smith, Heber J. Grant, George Albert Smith, David O. McKay, Joseph Fielding Smith e Harold B. Lee — todos depois de Brigham Young — não receberam essa revelação?
A Igreja Católica pediu desculpas pela Inquisição. Igrejas reformadas pediram desculpas pela escravidão. A Igreja SUD reconheceu que as teorias eram erradas — mas até 2026 não emitiu nenhum pedido formal às famílias negras que foram ensinadas por décadas que eram "menos valentes" na pré-existência.
O historiador mórmon W. Paul Reeve, em Religion of a Different Color: Race and the Mormon Struggle for Whiteness (Oxford University Press, 2015), analisa os registros eclesiásticos e conclui:
O banimento racial SUD foi uma criação humana, instituída por Brigham Young em circunstâncias históricas específicas — o encontro com a sociedade escravista do Missouri, a necessidade de legitimação política em Utah, o casamento inter-racial de Q. Walker Lewis em Massachusetts. Não há base doutrinária anterior a 1847 em documentos canônicos, e a justificação teológica foi construída retrospectivamente.
O trabalho de Reeve foi publicado por Oxford, recebeu prêmio da Mormon History Association e é citado pelo próprio Gospel Topics Essay em suas referências. A Igreja reconhece academicamente que o banimento foi construído — mas não chega a dizer que Brigham Young cometeu um erro profético.
Entre 1852 e 1978, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias excluiu pessoas de ascendência africana negra de ordenanças essenciais de sua teologia — sacerdócio, endowment, selamento — com base em uma doutrina ensinada por seus profetas como revelação divina.
A doutrina não foi uma preferência cultural tácita. Foi pregada em sermões oficiais, publicada em manuais, canonizada em literatura apologética como Mormon Doctrine de Bruce R. McConkie, e justificada por nove presidentes sucessivos da Igreja ao longo de 126 anos.
Em 2013, a Igreja desautorizou as justificativas. Mas não revogou a autoridade profética de Brigham Young — criando o impasse epistemológico que permanece: se um profeta pode ensinar racismo "em nome de Jesus Cristo" durante 25 anos, e outros oito profetas podem manter a política, como identifica-se a "revelação" da "opinião humana"?
A própria Igreja reconhece oficialmente os fatos deste tema em Gospel Topics Essay (2013) e em Declaração Oficial 2 (1978, canonizada em D&C). Os sermões originais estão preservados no Journal of Discourses e nos papers de George D. Watt.
Triangulação de fontes: o Gospel Topics Essay oficial (2013) + a Declaração Oficial 2 canonizada em D&C (1978) + Journal of Discourses original (publicado pela própria Igreja em 1850–1880) + Mormon Doctrine de McConkie (1958) + Dialogue 1973 + Oxford 2015 — tudo converge. A Igreja reconhece institucionalmente que a política existiu de 1852 a 1978, que os fundamentos teológicos foram desautorizados, e que o racismo é hoje condenado.