Em agosto de 2022, Michael Rezendes da Associated Press publicou uma investigação que expunha como a "Help Line" para bispos da Igreja SUD — operada por advogados do escritório Kirton McConkie — foi usada sistematicamente para ocultar abusos sexuais infantis em vez de reportá-los. O caso central: Paul Adams, membro ativo no Arizona, abusou sexualmente de suas duas filhas por 7 anos — o bispo soube pela confissão do pai, consultou a Help Line, foi instruído a permanecer em silêncio. Adams filmou os abusos e os distribuiu na dark web.
A Help Line da Igreja SUD é um serviço telefônico disponível 24 horas para bispos e presidentes de estaca. Foi criada nos anos 1990 e é operada exclusivamente pelo escritório de advocacia Kirton McConkie — os advogados oficiais da Corporation of the President of The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints.
Oficialmente, o serviço foi apresentado aos membros como "suporte pastoral" para bispos que enfrentassem casos difíceis: abuso, adicção, problemas de saúde mental. Na realidade documentada pela investigação AP:
É linha jurídica. Bispos ligam, falam com um advogado, recebem instruções sobre o que fazer — onde o ponto de vista do advogado é a proteção da Igreja como cliente corporativo.
Kirton McConkie pode afirmar que qualquer informação compartilhada pelo bispo é protegida pelo privilégio advogado-cliente — bloqueando obrigações legais de reportar abuso.
A AP documentou múltiplos casos em que bispos foram explicitamente instruídos pela Help Line a "não reportar" — usando o clergy-penitent privilege como escudo.
Então as mesmas pessoas que "aconselham" bispos são as que depois defendem a Igreja contra processos movidos pelas vítimas dos bispos.
A Help Line é parte de um sistema desenhado para proteger a Igreja SUD de responsabilidade legal por casos de abuso sexual infantil, em vez de proteger crianças, segundo documentos confidenciais vazados, depoimentos em tribunal e entrevistas com advogados que processaram a Igreja.
Paul Adams era membro ativo da Igreja no ward de Bisbee, Arizona, casado e pai de seis filhos. Entre 2004 e 2011, abusou sexualmente de sua filha mais velha — começando quando ela tinha 5 anos. Posteriormente, abusou também de sua filha mais nova. Filmou pelo menos um estupro do bebê. Distribuiu os vídeos em redes de pornografia infantil na dark web.
Paul Adams confessou ao bispo John Herrod que havia estuprado uma das filhas. Herrod ligou para a Help Line. Foi instruído a NÃO REPORTAR à polícia — porque o Arizona tem exceção de "clergy-penitent privilege" para clérigos em comunicações confidenciais.
Por mais de 6 anos, Adams continuou a ser membro em boa situação da Igreja. Continuou a abusar a filha mais velha. Passou a abusar também da filha mais nova (bebê) e a filmar. Um novo bispo (Robert "Kim" Mauzy) foi informado pelo próprio Adams; também ligou à Help Line; também foi instruído a não reportar.
Adams foi preso pelo FBI — não pela Igreja. Investigação federal rastreou vídeos de pornografia infantil até ele. Foi indiciado por produção, posse e distribuição de material de abuso sexual infantil.
Paul Adams suicidou-se em cela do FBI antes do julgamento. Os registros federais — incluindo depoimentos de Adams sobre o conhecimento dos bispos — foram preservados.
As filhas de Adams (já adolescentes) processaram a Igreja em tribunal civil em Cochise County, Arizona, alegando negligência. Durante a descoberta jurídica, documentos internos foram revelados — base da reportagem AP de 2022.
Michael Rezendes publica "Seven years of sex abuse: How Mormon officials let it happen", detalhando o esquema da Help Line com documentação legal.
Durante 7 anos, pelo menos dois bispos e pelo menos um advogado da Help Line conheciam o abuso continuado das duas crianças de Paul Adams. Nenhum reportou. O abuso só terminou quando o FBI prendeu Adams por distribuição de pornografia infantil — sem qualquer contribuição da Igreja.
A investigação AP, baseada em documentos internos revelados em processos judiciais, identificou o fluxo típico quando um bispo recebe confissão ou conhecimento de abuso:
| Passo | Ação oficial | Resultado documentado |
|---|---|---|
| 1. Bispo recebe informação | Ligação obrigatória à Help Line | Manual da Igreja requer contato ANTES de qualquer ação |
| 2. Advogado de Kirton McConkie atende | Avalia legalmente o caso | Ponto de vista: proteger a Igreja de responsabilidade |
| 3. Avaliação de obrigação de reportar | Estado-específico — qual a lei local? | Se o estado tem "clergy privilege", instrução é NÃO reportar |
| 4. Registros são criados | Notas internas para "proteger" a Igreja | Registros são mantidos pelo escritório (attorney-client privilege) |
| 5. Se vítima depois processar | Kirton McConkie defende a Igreja | Usa seus próprios registros da Help Line para minar a vítima |
A Associated Press obteve, através de descoberta judicial no caso Adams, um e-mail interno da Help Line enviado em 2012 ao bispo John Herrod que ilustra o método:
Bispo Herrod — como discutimos, sob o Arizona Revised Statutes §13-3620, você tem uma exceção ao dever de reportar em razão do privilégio penitente-clérigo. Baseado em nossa conversa, aconselhamos que você NÃO reporte este caso a autoridades civis. Qualquer reporte poderia expor a Igreja a responsabilidade. [...] Continue a ministrar pastoralmente ao irmão Adams, mas não faça registros escritos.
O advogado tecnicamente não está mentindo. O estado do Arizona tem, de fato, uma exceção clergy-penitent no dever de reportar. O problema é ético, não técnico.
Primeiro: mesmo quando a LEI não exige reportar, nada impede um reporte voluntário. O silêncio foi uma escolha institucional, não uma imposição legal.
Segundo: o "privilégio penitente" existe para proteger confissões religiosas — mas também existe a possibilidade de o bispo pedir à confessada que o libere do privilégio, ou de reportar apenas informações obtidas fora do contexto confessional. Esses caminhos não foram usados.
Terceiro: a instrução de "não fazer registros escritos" revela que o objetivo não foi proteger a confissão religiosa — foi proteger a Igreja de evidência futura que pudesse incriminá-la em processos civis.
Após a reportagem inicial de 2022, a Associated Press continuou a investigação e publicou uma série cobrindo múltiplos casos semelhantes em diversos estados. O trabalho do repórter Michael Rezendes — veterano do Spotlight Team do Boston Globe que investigou o caso de abusos católicos — é hoje a documentação mais completa do tema.
A Associated Press documentou em reportagem de abril de 2024 que a Help Line recebe aproximadamente 1.000 a 3.000 chamadas anuais sobre abuso sexual. Nenhuma estatística é publicada oficialmente pela Igreja sobre quantas levam a reportes policiais.
Até 2024, Floodlit.org — organização de monitoramento independente — havia catalogado mais de 500 casos individuais documentados de abuso sexual por líderes ou membros da Igreja SUD, com registros judiciais ou reportagens primárias. O número representa apenas os casos com documentação pública — a estimativa real é ordens de magnitude maior.
Após a reportagem AP de agosto de 2022, a Igreja publicou uma resposta oficial através de seu Newsroom.
A ideia de que a Igreja usa a Help Line de Abuso para encobrir abuso é falsa. [...] A Help Line foi estabelecida para ajudar os bispos a proteger as vítimas, cumprir as leis locais e agir em harmonia com os ensinamentos do evangelho. [...] Quando há uma obrigação legal de reportar, instruímos os bispos a fazê-lo.
A posição oficial é que a Igreja apenas segue a lei. Mas os documentos revelados em MJ Doe v. LDS Church (2022) contradizem a afirmação de três maneiras documentáveis:
O e-mail Kirton McConkie de 2012 não é passivo ("não é obrigado a reportar"). É ativo: "aconselhamos que você NÃO reporte". É uma instrução para fazer o silêncio.
A instrução "não faça registros escritos" só tem sentido em uma estratégia de proteção legal futura da instituição — não em uma estratégia de proteção pastoral da vítima.
Em casos documentados (West Virginia, Oregon), Help Line aconselhou silêncio em estados que NÃO têm exceção clergy-penitent, violando explicitamente o dever legal.
Em novembro de 2023, a Igreja SUD — em conjunto com a Igreja Católica, a Convenção Batista do Sul e outras organizações religiosas — fez lobby bem-sucedido contra o Utah House Bill 215, que teria eliminado a exceção clergy-penitent no estado. A campanha de lobby foi documentada pelo Salt Lake Tribune.
A Igreja que afirma publicamente querer "proteger vítimas" e "cumprir a lei" gasta recursos para preservar a exceção legal que permite a bispos NÃO reportar abusos. A contradição foi documentada por Salt Lake Tribune, Deseret News, Tribune-Democrat em dezenas de cobertura legislativa entre 2019 e 2024.
A "Help Line" da Igreja SUD é — como demonstrado por documentos internos revelados em tribunal e por investigação jornalística premiada — um mecanismo legal projetado para proteger a Igreja de responsabilidade por casos de abuso sexual, não para proteger vítimas. A investigação do repórter Michael Rezendes da Associated Press fundamenta esta conclusão com documentação primária: e-mails de advogados, depoimentos judiciais, e relatórios internos de caso.
O caso Paul Adams é especialmente devastador: duas crianças foram abusadas por sete anos por um pai que CONFESSOU a dois bispos. Em ambas as ocasiões, a Help Line instruiu silêncio. O abuso terminou apenas quando o FBI (não a Igreja) prendeu o pai por distribuição de pornografia infantil.
A posição oficial da Igreja — "a Help Line protege vítimas" — é contraditada por sua própria conduta documentada: instruções ativas contra reporte, proibição de registros escritos, lobby legislativo contra a eliminação da exceção clergy-penitent, e defesa processual usando como escudo os mesmos registros que os advogados criaram para o bispo. O veredicto não é especulação — é o conteúdo explícito dos documentos revelados pelo próprio sistema judicial americano.
As informações desta página vêm de: reportagem investigativa premiada da Associated Press (com acesso a documentos internos via descoberta judicial), processos federais de abuso infantil (Paul Adams), ações civis em múltiplos estados americanos e cobertura jornalística do Salt Lake Tribune, Washington Post e Los Angeles Times.
A documentação deste tema é excepcionalmente sólida: reportagem investigativa Associated Press (com documentos de descoberta judicial), processos federais americanos (U.S. v. Adams), ações civis em múltiplos estados (Arizona, Oregon, West Virginia), cobertura de Salt Lake Tribune e Washington Post, banco de dados público de Floodlit.org, e a própria resposta oficial da Igreja. Todas as alegações factuais desta página estão documentadas em registros públicos legais ou jornalísticos verificáveis.