A Igreja batiza pessoas já falecidas por procuração, no templo, em nome delas. Quando os nomes de vítimas do Holocausto começaram a aparecer nos registros, o Centro Simon Wiesenthal exigiu um acordo internacional em 1995. Os problemas continuaram.
A prática se apoia em uma leitura mórmon de 1 Coríntios 15:29 e em revelações de Joseph Smith.
O mormonismo ensina que os rituais salvíficos — batismo, confirmação, endowment, selamento matrimonial — são necessários para a exaltação. Como muitas pessoas morrem sem receber esses rituais, a doutrina afirma que é possível realizá-los em nome delas, usando um membro vivo como "procurador" (proxy). A pessoa falecida, no "mundo dos espíritos", aceitaria ou recusaria o ritual livremente.
A base canônica principal está em Doutrina e Convênios 128, duas cartas que Joseph Smith enviou à Igreja em 1842 (e que foram canonizadas):
Portanto, meus amados irmãos, sem nós eles não podem ser aperfeiçoados; nem nós sem eles podemos ser aperfeiçoados. [...] Esses são os princípios referentes aos mortos e aos vivos que não podem ser desprezados levianamente [...]. Porquanto é necessário que o sacerdócio seja ligado por um élo entre os pais e os filhos [...]; caso contrário, toda a Terra seria ferida com maldição.
Joseph Smith cita como precedente bíblico 1 Coríntios 15:29, uma passagem enigmática do apóstolo Paulo: "De outra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam?" — quase universalmente entendida pelos estudiosos cristãos como referência crítica a uma prática local em Corinto, não como endosso de um sacramento para toda a Igreja.
A prática gera estatísticas que precisam ser compreendidas para medir o problema.
O batismo vicário é executado em pias batismais especiais dentro dos templos mórmons — grandes recipientes suspensos por doze bois de bronze (referência simbólica às doze tribos de Israel). O membro vivo (normalmente um adolescente de 12 a 18 anos, a partir de 2019) entra na pia e é batizado, por imersão, em nome de uma pessoa falecida específica. Em uma única sessão, um jovem pode "servir" como procurador para várias dezenas de nomes.
Para alimentar a demanda de nomes, a Igreja mantém o FamilySearch, um dos maiores bancos de dados genealógicos do mundo — ferramenta que também é oferecida gratuitamente ao público geral e cuja aceitação está, em parte, desvinculada da prática religiosa.
Do ponto de vista da Igreja, o batismo por procuração é um gesto de amor: oferecer a um morto a chance de aceitar o ritual, que a pessoa poderá rejeitar. Do ponto de vista de famílias que não são mórmons — sobretudo comunidades com identidade religiosa forte e memórias traumáticas, como judeus sobreviventes da Shoá — a prática é percebida como apropriação religiosa póstuma. A tensão não é teórica: ela eclodiu publicamente em 1995 e continua viva.
No início dos anos 1990, pesquisadores judeus descobriram algo alarmante nos registros públicos da Igreja.
Entre 1991 e 1994, o pesquisador judeu Gary Mokotoff e o Rabino Marvin Hier, diretor do Centro Simon Wiesenthal, descobriram que o banco de dados International Genealogical Index (IGI) da Igreja continha os nomes de centenas de milhares de vítimas do Holocausto listadas como batizadas por procuração em templos mórmons. O banco de dados incluía pessoas mortas em Auschwitz, Treblinka, Sobibor.
O New York Times publicou a primeira reportagem em 29 de abril de 1995:
A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias [...] concordou em interromper a prática de batizar postumamente judeus mortos no Holocausto [...]. O acordo veio após anos de queixas de grupos judaicos, que haviam descoberto centenas de milhares de nomes de vítimas do Holocausto — incluindo Anne Frank — nos registros da igreja.
Em 28 de abril de 1995, após negociações conduzidas por Ernest Michel, sobrevivente de Auschwitz, a Igreja assinou um acordo formal com o Comitê Americano dos Sobreviventes do Holocausto.
O acordo — celebrado entre Ernest Michel (em nome dos sobreviventes) e o apóstolo Monte J. Brough (em nome da Igreja) — previa:
A Igreja se comprometeu a remover do banco de dados os nomes de vítimas judias do Holocausto já submetidas.
Membros foram instruídos a não submeter nomes de vítimas do Holocausto para batismo vicário, exceto descendentes diretos.
A Igreja prometeu desenvolver sistemas técnicos para detectar e impedir novas submissões de vítimas do Holocausto.
Assinatura do acordo entre Ernest Michel (sobreviventes) e Monte J. Brough (Igreja).
Helen Radkey, pesquisadora ex-membro, documenta novos batismos de vítimas judias.
Novo compromisso após reclamações contínuas; nova promessa de controles técnicos.
Radkey documenta que Anne Frank foi batizada pela nona vez por procuração em um templo da República Dominicana.
Reuters e AP reportam que Adolf Hitler, Josef Stalin e o pai muçulmano de Obama foram batizados por procuração.
Três décadas após 1995, a pesquisadora Helen Radkey documenta repetidamente novos batismos de vítimas do Holocausto.
Helen Radkey é ex-membro da Igreja que, desde os anos 1990, monitora o banco de dados interno (IGI/New FamilySearch) em busca de submissões inadequadas. Seu trabalho — divulgado principalmente pelo Salt Lake Tribune e pela Associated Press — documenta violações repetidas:
Helen Radkey [...] disse esta semana que encontrou os nomes dos pais de Simon Wiesenthal — Asher Wiesenthal e Rosa Rapp — submetidos para batismo por um templo mórmon no Arizona em 6 de janeiro de 2012 [...]. "É uma completa falta de respeito pelos mortos e pelos vivos", disse ela.
Os registros da Igreja mostram que Anne Frank, a adolescente judia-alemã cujo diário documentou a vida no esconderijo nazista, foi batizada postumamente nove vezes entre 1989 e fevereiro de 2012, a última vez em um templo da República Dominicana [...]. Os batismos de Anne Frank foram realizados apesar de acordos com grupos judaicos.
A posição oficial da Igreja nesses incidentes é que as submissões foram feitas por membros individuais violando as regras internas, e não pela instituição em si — mas os controles técnicos prometidos em 1995 repetidamente falharam em detectar a fila.
Em 2012, a Igreja anunciou que desativaria batismos de qualquer vítima do Holocausto que não fosse familiar direto do solicitante. Helen Radkey e outros pesquisadores continuam, ao longo dos anos seguintes, a documentar submissões que driblam esse filtro.
A lista de personagens históricos batizados por procuração é longa. Alguns casos geraram crises diplomáticas próprias.
| Pessoa falecida | Quem divulgou / Fonte | Repercussão |
|---|---|---|
| Anne Frank (morta em Bergen-Belsen, 1945) | Helen Radkey · Salt Lake Tribune · Reuters 2012 | Batizada 9 vezes até 2012. Acordo violado. |
| Adolf Hitler | Reuters · 21/fev/2012 | Batismos documentados em templos dos EUA. |
| Simon Wiesenthal (pais de) | NYT · 21/fev/2012 | Batizados em jan/2012 — o ativista que negociou o acordo original. |
| Papa João Paulo II (e outros papas) | Salt Lake Tribune · 2008 | Crise com o Vaticano. Diretriz 2008. |
| Barack Obama Sr. (pai muçulmano do presidente) | Huffington Post / AP · 2012 | Batizado um ano após a morte. Constrangedor em ano eleitoral. |
| Mahatma Gandhi | Helen Radkey · 2012 | Batismo revogado após divulgação. |
| Anna Walter (mãe materna de Obama) | Salt Lake Tribune · 2009 | Batizada apenas 16 meses após o falecimento. |
Em 2008, após pedidos formais do Vaticano, a Congregação para a Doutrina da Fé proibiu dioceses católicas de fornecer dados genealógicos ao FamilySearch mórmon, em retaliação aos batismos póstumos de católicos famosos.
A doutrina do batismo pelos mortos tem base escriturística mórmon reconhecida (D&C 128) e o ritual é realizado em todos os templos da Igreja com escala industrial. Para os fiéis, é um ato de amor. Para muitas das famílias das pessoas batizadas — judeus, católicos, hindus, ateus — é uma apropriação religiosa póstuma, feita sem consentimento.
O padrão de três décadas mostra que, mesmo após acordo formal com sobreviventes do Holocausto em 1995, as violações continuam acontecendo. A Igreja atribui à ação de membros individuais, mas não implementou controles técnicos que eliminem o problema.
O ponto factual é incontestável: vítimas de Auschwitz, Anne Frank, Hitler, papas católicos e figuras de outras tradições religiosas têm seus nomes nos registros do templo como "batizados" segundo o rito mórmon. Cada pessoa decide como avaliar essa prática. Mas ela precisa ser conhecida — não inferida.
Todas as afirmações desta página vêm de escritura canônica mórmon, Gospel Topics Essay oficial, reportagens do New York Times, Reuters, AP e Salt Lake Tribune, e documentação direta da pesquisadora Helen Radkey.
Os casos citados nesta página foram verificados contra múltiplas reportagens independentes (NYT, Reuters, AP, SLTribune) e pelo trabalho contínuo de Helen Radkey sobre os registros internos da Igreja. A Igreja não nega a prática em si — apenas atribui as violações do acordo a membros individuais agindo fora das diretrizes oficiais.