O segundo profeta e presidente da Igreja ensinou oficialmente, do púlpito, que Adão — o primeiro homem — era Deus Pai, criador deste mundo. Um século depois, um apóstolo da mesma Igreja chamou a ideia de uma "heresia mortal".
Brigham Young, então presidente da Igreja e governador do Território de Utah, pregou o sermão mais controverso da história do mormonismo.
Em 9 de abril de 1852, em sessão da Conferência Geral da Igreja, realizada no antigo Tabernáculo de Salt Lake City, Brigham Young — sucessor de Joseph Smith, segundo presidente e "profeta, vidente e revelador" — ensinou a doutrina que ficaria conhecida como "Adão-Deus" (Adam–God Theory). O sermão foi transcrito pelos escribas oficiais e publicado no primeiro volume do Journal of Discourses (1854), a coletânea oficial de sermões dos líderes da Igreja:
Agora ouçam. Direi em simplicidade coisas que talvez os Élderes nunca tenham pensado. Quando nosso pai Adão entrou no Jardim do Éden, ele veio com um corpo celestial, e trouxe Eva, uma de suas esposas, com ele. Ele ajudou a fazer e organizar este mundo. Ele é MIGUEL, o Arcanjo, o ANCIÃO DE DIAS! sobre quem os escritos sagrados falam [...]. Ele é nosso PAI e nosso DEUS, e o único Deus com quem TEMOS ALGO A VER. Cada homem sobre a terra [...] que professa acreditar na Bíblia, está perfeitamente surdo quanto aos murmúrios, os clamores, as lágrimas e lamentos de Jesus ao seu Pai, ADÃO.
A afirmação é inequívoca. Young não apenas identifica Adão com Miguel (o arcanjo, que, na teologia mórmon, é o Adão pré-mortal) — isso sim é doutrina ainda hoje. Ele vai muito além: afirma que Adão é Deus Pai, o único Deus com quem os humanos têm contato, e o Pai a quem Jesus orava.
Para o mormonismo atual, Adão é um homem (o primeiro homem criado) e Deus Pai ("Elohim") é uma pessoa distinta, com corpo glorificado. A doutrina Adão-Deus identifica as duas pessoas — contradizendo diretamente o que a Igreja ensina hoje.
A teoria Adão-Deus não foi uma frase isolada — Brigham Young a pregou dezenas de vezes, em público e em privado, do sermão de 1852 até sua morte em 1877.
O historiador David John Buerger, em artigo revisado por pares publicado em 1982 na revista Dialogue: A Journal of Mormon Thought, catalogou dezenas de sermões e escritos em que Young ensinou a doutrina entre 1852 e 1877, incluindo:
"Adão é nosso PAI e nosso DEUS, e o único Deus com quem temos algo a ver." — JD 1:50
O sermão é incluído no vol. 1 da coletânea oficial de sermões. Young como editor aprova a transcrição.
Sermão no qual Young explicitamente afirma que as orações ao "Pai" são dirigidas a Adão.
Reiteração pública: "Adão é nosso Pai e nosso Deus." Reforço da doutrina após críticas de outros líderes.
Young reafirma a doutrina no jornal oficial da Igreja em Utah.
Doutrina em circulação ininterrupta por 25 anos. Próximos presidentes começam a se distanciar dela silenciosamente.
O apóstolo Orson Pratt — também um dos "Doze" — se opôs publicamente à doutrina Adão-Deus e entrou em confronto doutrinário com Young já na década de 1860. Gary James Bergera, em Conflict in the Quorum (Signature Books, 2002), documenta o debate interno com ampla base de diários e correspondências.
A doutrina Adão-Deus não pode ser descartada como especulação privada do líder. Foi pregada em conferência geral, transcrita por escribas oficiais, publicada no Journal of Discourses (compilação oficial aprovada pela Primeira Presidência) e reiterada em sermões, jornal oficial e correspondência por 25 anos. Qualquer padrão razoável de definição do que é "ensino profético oficial" a incluiria.
Em 1º de junho de 1980, o apóstolo Bruce R. McConkie subiu ao púlpito da BYU e classificou a doutrina Adão-Deus como uma heresia — ensinada, segundo ele, por alguém que "não compreendeu".
O devocional foi proferido diante de milhares de estudantes do Brigham Young University e publicado posteriormente como "The Seven Deadly Heresies" (As Sete Heresias Mortais). McConkie — então um dos Doze Apóstolos — enumerou sete ideias que classificou como ensinamentos doutrinariamente mortais. A segunda heresia é a doutrina Adão-Deus:
Heresia número 2: Há aqueles que dizem que Deus progride em conhecimento e está aprendendo novas verdades. Isto é falso [...]. Heresia número 1: Há aqueles que dizem que Deus é progressivo — que ele está aprendendo novas verdades e continuará a aprender [...]. Heresia número 2: Há aqueles que acreditam, ou professam acreditar, que Adão é nosso pai e nosso Deus, que ele é o pai de nossos espíritos e nossos corpos, e que ele é aquele a quem adoramos. O diabo mantém essa heresia viva como meio de obter conversos para o cultismo. É contrária a todo o plano de salvação estabelecido nas Escrituras [...]. Qualquer pessoa que acredita que Adão é o pai de nossos espíritos ou o pai de Jesus está em terreno teológico perigoso. Adão não é o pai. Adão é o primeiro homem.
A refutação de McConkie veio 128 anos depois do sermão original de Young. Ele não nomeia Brigham Young, mas a posição criticada é exatamente a de 1852. McConkie usa a expressão "O diabo mantém essa heresia viva" — linguagem forte para se referir a uma doutrina que foi pregada oficialmente pelo sucessor direto de Joseph Smith.
Em 1976, em Conferência Geral, o presidente Spencer W. Kimball já havia se distanciado da doutrina em seu discurso "Our Own Liahona", afirmando que alguns dos primeiros santos "falsamente acreditaram" que Adão é Deus. Spencer Kimball foi presidente da Igreja de 1973 a 1985.
Alertamos vocês contra o recebimento de doutrinas falsas. Ouvimos de tempos em tempos sobre a teoria errônea de Adão-Deus. Denunciamos essa teoria e esperamos que todos estejam avisados contra essa e outras noções estranhas.
A doutrina Adão-Deus não é, em si, o problema fundamental. O problema é o que ela revela sobre o conceito mórmon de autoridade profética.
O mormonismo sustenta que o Presidente da Igreja é "profeta, vidente e revelador" e que seus ensinamentos oficiais são a palavra de Deus para a Igreja hoje. Declaração Oficial 1 (1890) e Declaração Oficial 2 (1978) — ambas canônicas — são exemplos dessa autoridade.
A doutrina Adão-Deus coloca essa premissa em xeque de forma aguda:
2º Presidente. Ensinou publicamente por 25 anos que Adão é Deus Pai. Publicado em Journal of Discourses e Deseret News oficiais.
12º Presidente. Chamou a doutrina Adão-Deus de "teoria errônea" em Conferência Geral de outubro de 1976. Posição publicada oficialmente.
Apóstolo. Em 1980, classificou a doutrina como "heresia mortal" inspirada pelo diabo. Devocional BYU gravado e publicado.
| Questão | Brigham Young (1852) | Presidente Kimball (1976) / Apóstolo McConkie (1980) |
|---|---|---|
| Quem é Deus Pai? | Adão é Deus Pai | Adão não é Deus Pai — é o primeiro homem |
| A quem oramos? | A Adão, "o único Deus com quem temos algo a ver" | A Elohim, pessoa distinta de Adão |
| Origem da doutrina oposta | "Nunca os Élderes pensaram nisso" (novidade revelada) | "O diabo mantém essa heresia viva" |
| Status do ensino | Publicado como sermão oficial | Condenado como heresia mortal |
Não é possível que as duas posições sejam verdadeiras ao mesmo tempo. Se Brigham Young falou por Deus ao identificar Adão com o Pai, então Kimball e McConkie ensinaram heresia ao negá-lo — e vice-versa. A defesa apologética usual é que Young "nunca pretendeu ensinar isso como doutrina oficial" ou foi "mal interpretado pelos escribas". Essa saída exige acreditar que o Journal of Discourses e o Deseret News publicaram por 25 anos uma versão inexata do que o Profeta realmente queria dizer, sem que ele corrigisse publicamente.
A posição atual oficial é documentada na carta da Primeira Presidência de 1912 e reforçada por Spencer W. Kimball em 1976: a doutrina Adão-Deus não é doutrina atual da Igreja. Como isso se reconcilia com a autoridade profética de Brigham Young é uma questão que permanece teologicamente em aberto — e que o Gospel Topics Essay sobre o tema nunca foi publicado.
A doutrina Adão-Deus é um caso documentado em que um profeta e presidente da Igreja ensinou oficialmente, por um quarto de século, algo que outros presidentes e apóstolos posteriores classificaram como heresia. As duas posições estão publicadas em canais oficiais.
O problema que isso coloca — se "profetas, videntes e reveladores" falam por Deus, como um pode ensinar o que outro chama de mentira diabólica? — é o problema estrutural mais difícil do mormonismo. E é precisamente o que leva a maior parte dos ex-membros intelectualmente orientados a perguntar sobre a própria natureza da autoridade profética.
Para quem estuda o mormonismo com honestidade, a doutrina Adão-Deus não é uma excentricidade do passado: é um teste de consistência aplicado à afirmação central da própria Igreja sobre como Deus se comunica com ela.
Todas as citações desta página vêm do Journal of Discourses (publicação oficial de sermões da Igreja), do Deseret News oficial, de devocional BYU gravado e de obra acadêmica peer-reviewed em Dialogue Journal.
O Journal of Discourses (26 volumes) foi a publicação oficial de sermões da Igreja entre 1854 e 1886. Era distribuído em unidades locais e em seminários. As citações desta página estão nos volumes 1 (pp. 50–51) e 5 (pp. 331–332). A refutação de McConkie está disponível no arquivo de palestras da BYU. A denúncia de Kimball está no discurso "Our Own Liahona" (Conferência Geral, out/1976).